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Artista faz desenhos das últimas casas de madeira em Londrina: 'Eternizar a memória coletiva da cidade' | Norte e Noroeste


Com uma mochila nas costas, lápis, papel e prancheta, o artista Caio Felipe de Souza, de 26 anos, sai à procura de casas de madeira para desenhar, em Londrina, no norte do Paraná. Veja as fotos abaixo.

O projeto “Como se fosse hoje, ainda me lembro delas” conta com quase 300 obras desenhadas pelo jovem ao longo de cinco anos. O objetivo é preservar a paisagem urbana por meio dos traços sobre o papel.

“Eu cresci dentro de uma casinha de madeira, tem tudo a ver com a história de Londrina, cidade onde eu nasci, então a memória afetiva é muito forte. Atualmente, essas casinhas de madeira estão sendo demolidas da paisagem urbana. O que eu faço é desenhá-las para perpetuar as casas na arte, porque assim eu imortalizo essas memórias felizes e vou constituindo o meu trabalho”, explicou.

Conforme dados da Secretaria Municipal de Fazenda, apenas 5,4% das unidades imobiliárias de Londrina têm estrutura de madeira. Ou seja, das 271.353 unidades, 14.774 são de madeira.

Casa de madeira no Jardim do Sol, em Londrina — Foto: Caio Felipe de Souza

Casa de madeira no Jardim do Sol, em Londrina — Foto: Caio Felipe de Souza

Segundo a secretaria, a maioria dessas casas fica na Vila Casoni, Vila Nova e Centro. O artista já fez registros também em outros bairros pioneiros, como o Vila Recreio e Jardim do Sol.

“É um colecionismo. Acredito que é um trabalho para a vida inteira, eternizar a memória coletiva da cidade. Essa questão das lembranças da infância, da nossa parte mais feliz da vida, é algo que me motiva a continuar com esse trabalho. A ideia é não deixar nenhuma casa ‘ir embora’ sem um registro antes, sem um desenho para guardar na memória”, disse o jovem.

Para a diretora acadêmica do Museu Histórico de Londrina, Edméia Aparecida Ribeiro, o trabalho do artista é importante porque as casas de madeira são muito representativas para a cidade e, aos poucos, estão sendo substituídas por estabelecimentos comerciais ou novas casas de alvenaria

“Esse trabalho de preservar a memória por meio da arte é importante, porque são as casas de madeira, que foram as casas que as pessoas construíram quando vieram para essa região, até porque tinha muita madeira, muita mata foi derrubada. Achei muito interessante e belíssimo, um trabalho de generosidade para com a história e memória da cidade de Londrina”, disse.

Segundo o artista, a primeira casa de madeira desenhada por ele, em 2017, não existe mais.

Primeira casa de madeira desenhada pelo artista em 2017 não existe mais, em Londrina — Foto: Caio Felipe de Souza

Primeira casa de madeira desenhada pelo artista em 2017 não existe mais, em Londrina — Foto: Caio Felipe de Souza

Caio faz desenhos naturalistas das casas de madeira, em Londrina — Foto: Caio Felipe de Souza

Caio faz desenhos naturalistas das casas de madeira, em Londrina — Foto: Caio Felipe de Souza

Ao ver a própria casa inspirar uma obra de arte, muitas pessoas se encantam e compartilham com o artista as próprias histórias vividas naquele espaço.

De acordo com Souza, alguns dos moradores chegam a convidá-lo para entrar e tomar café enquanto contam sobre a construção do lugar.

“Eu gosto muito de ver como o trabalho evoca a memória das pessoas. As pessoas se lembram de quando elas moravam nas casinhas, se lembram de momentos felizes que viveram nas casinhas. Isso é muito importante para mim como artista, porque vejo que tem história dentro daquele espaço que estou retratando.”
Casas desenhadas resgatam as memórias das pessoas, em Londrina — Foto: Caio Felipe de Souza

Casas desenhadas resgatam as memórias das pessoas, em Londrina — Foto: Caio Felipe de Souza

Londrina tem 5,4% das unidades imobiliárias com estrutura de madeira, segundo a Secretaria da Fazenda — Foto: Caio Felipe de Souza

Londrina tem 5,4% das unidades imobiliárias com estrutura de madeira, segundo a Secretaria da Fazenda — Foto: Caio Felipe de Souza

Atualmente, o jovem trabalha com a venda de quadros e desenhos em feiras. Nos últimos dois anos, também tem se planejado para transformar o projeto em livro.

Os registros das casas de madeira começaram ainda durante a graduação de Artes Visuais, na Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Réplica da primeira Catedral de Londrina, na UEL — Foto: Caio Felipe de Souza

Réplica da primeira Catedral de Londrina, na UEL — Foto: Caio Felipe de Souza

Formado em 2020, o artista também faz obras surrealistas e retrata as casas por meio da xilogravura- técnica de gravura em madeira.

“É o nosso lar, é nossa terra. A gente precisa reforçar as raízes, até para as próximas gerações terem conhecimento de como surgiu o local onde eles moram. Eu acredito que a arte tem um poder educativo muito forte e nada melhor do que explicar com as imagens para fazer sentido para a criança, para o jovem e adolescente”, afirmou.

Artista também retrata casas em xilogravura, uma técnica feita em madeira — Foto: Caio Felipe de Souza

Artista também retrata casas em xilogravura, uma técnica feita em madeira — Foto: Caio Felipe de Souza

As construções de madeira na região central de Londrina foram proibidas em 26 de março de 1939, por meio de decreto municipal.

A cidade tinha apenas quatro anos quando Adriano Marino Gomes, o então prefeito substituo de Willie Davids, determinou a medida.

A decisão foi divulgada no jornal Paraná-Norte, e a publicação está disponível no acervo do Museu Histórico de Londrina.

Conforme o decreto, a medida foi adotada porque o município havia atingido “um nível de progresso admirável” e era necessário proibir “a construção de casas de madeiras nos principais trechos da zona urbana, para melhorar o aspecto de urbanização moderna.”

Decreto publicado em 1939, divulgado no Paraná-Norte, sobre a proibição das casas de madeira na região central da cidade — Foto: Acervo do Museu Histórico de Londrina/UEL

Decreto publicado em 1939, divulgado no Paraná-Norte, sobre a proibição das casas de madeira na região central da cidade — Foto: Acervo do Museu Histórico de Londrina/UEL

Enquanto a arquitetura mudava no Centro, a periferia continuava com as construções de madeira.

Conforme dados da prefeitura da época, entre 1940 e 1949, foram construídas 2.242 casas de madeira, 899 de alvenaria e 64 mistas.

Na década de 1950 a diferença ainda era grande, sendo 5.339 de madeira, 2.466 de alvenaria e 298 mistas, segundo um levantamento publicado no Jornal de Londrina, em 1997.

No livro “Labirinto da memória: paisagens de Londrina”, Humberto Tetsuya Yamaki contou que as construções de madeira na cidade eram aceitas por quase todos pioneiros, independentemente da situação financeira, e faziam parte da cultura dos imigrantes.

Em 2015, o Museu Histórico de Londrina teve as casas de madeira como tema de uma exposição — Foto: UEL/Divulgação

Em 2015, o Museu Histórico de Londrina teve as casas de madeira como tema de uma exposição — Foto: UEL/Divulgação

Por causa do grande número de construções desse tipo, em 1941 houve uma crise de falta de carpinteiros em Londrina, conforme o escritor.

“Muitas construções hoje existem somente na memória dos pioneiros e em arquivos. Desaparecendo a arquitetura de madeira, vai-se esvaindo também a multicultural e, muitas vezes, a milenar técnica construtiva aplicada”, escreveu.

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Fonte: G1


23/03/2022 – Rota do Sol FM

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