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Da periferia de Curitiba, 'Violinista Chavosa' mistura instrumental erudito com funk e música popular nos vagões do metrô de São Paulo


O trabalho de Maria Luiza Kaluzny é feito nos vagões das linhas de metrô de São Paulo.

A instrumentista nascida na Cidade Industrial de Curitiba, no Paraná, se apresenta com o violino aos passageiros, motivada pelos olhares encantados de quem retira os fones dos ouvidos ou os olhos do celular para escutá-la com atenção.

Aos 23 anos, moradora da Vila Brasilândia, no extremo da Zona Norte paulistana, a jovem viaja cerca de uma hora dentro dos ônibus até chegar ao local de trabalho (a estação de metrô mais próxima).

Depois, nos vagões, a arte da ‘Violinista Chavosa’ (como é chamada artisticamente) mistura músicas populares, internacionais e clássicas, mas o que ela mais gosta de ouvir e tocar é o funk.

“Acho que o uso do violino é muito simbólico porque é um instrumento que todo mundo conhece o nome. É pegar um instrumento extremamente erudito, elitizado, e falar ‘agora eu estou colocando no que eu ouço, no que eu vivo, na cultura que é do meu povo”, disse.

As apresentações chamam a atenção de quem utiliza o transporte público. Nas redes sociais, passageiros registram vídeos e relatam a surpresa de encontrar, durante o trajeto para casa, passeio ou trabalho, um número com violino.

Maria Luiza Kaluzny, de 23 anos, se apresenta nos vagões do metrô de São Paulo — Foto: Maria Kaluzny/arquivo pessoal

Maria Luiza Kaluzny, de 23 anos, se apresenta nos vagões do metrô de São Paulo — Foto: Maria Kaluzny/arquivo pessoal

‘Comecei pela necessidade’

Maria Luiza estuda violino desde os 11 anos e, em 2021, se mudou para São Paulo em busca do sonho de desenvolver a carreira. A mudança aconteceu depois de receber proposta de um empresário do ramo de funk.

A ideia era formar a artista com um número completo, atuando como MC e violinista. Porém, os planos não saíram como ela planejava, e a parceria com o empresário terminou.

Distante da família, que ficou em Curitiba, com contas a pagar e sem novos projetos em vista, ela encontrou nos vagões uma oportunidade.

“A gente teve desavenças, eu acabei ficando desamparada em São Paulo, e a minha alternativa, como eu tinha largado tudo, foi tocar no metrô. Comecei no metrô pela necessidade. Com o tempo, fui me apaixonando por isso, porque é muito legal você levar música todos os dias para todos os tipos de pessoas” , comentou.

A coragem e as orientações para começar a se apresentar entre os passageiros veio com o apoio de um amigo também violinista que ela conheceu no transporte.

'Violinista chavosa' mistura timbre do violino com músicas populares e funk — Foto: Maria Kaluzny/arquivo pessoal

‘Violinista chavosa’ mistura timbre do violino com músicas populares e funk — Foto: Maria Kaluzny/arquivo pessoal

O amigo a levou para um “intensivo”, segundo ela, convidou-a para acompanhá-lo nas apresentações e explicou como funciona a rotina e o planejamento de um músico de metrô.

“Ele falou assim ‘Malu, calma, você está em São Paulo e tem muita oportunidade. No começo, se você não quiser tocar, não precisa. Vá e veja como é. Aí, quando se sentir à vontade, a gente se apresenta junto”, lembra a instrumentista.

Planejamento das apresentações

O amigo também a ensinou sobre os perfis de cada linha do transporte e dos passageiros que a utilizam. Os músicos não costumam fazer diariamente as mesmas linhas e procuram trechos específicos, de acordo com a necessidade.

“A Linha Azul, que faz norte/sul, e a Linha Vermelha, que faz leste/oeste, são linhas que pegam mais o pessoal indo trabalhar, indo para a faculdade, voltando da aula. Ele foi me passando essas ‘manhas’. Na Linha Verde, por exemplo, que passa pela Paulista, tem muito turista, então, você tende a ganhar mais dinheiro”, comentou.

O planejamento de trabalho da violinista é feito de acordo com objetivos de dinheiro que ela estipula, mas também existem artistas que determinam uma quantidade de horas a cumprir no dia para poderem encerrar o expediente.

“Trabalho com metas. Por conta disso, eu falo ‘essa semana eu tenho que pagar o aluguel. Nesta semana vai vencer não sei o quê. Hoje minha meta é R$ 200’, ‘a minha meta é R$150’. Mas, além da meta, com certeza o que vale é essa interação com o público. Tem dias que você toca muito bem e não ganha tanto dinheiro quanto em outros”, disse.

A atividade de artistas e vendedores nos vagões em São Paulo não é regularizada e, assim, em muitas linhas, segundo ela, é preciso lidar com a presença de seguranças do transporte, que abordam os músicos e os retiram da estação.

“Estou trabalhando, ganhando meu pão, porém, o cara quando vem me abordar, é o trabalho dele também. Particularmente, eu tento não levar para o pessoal, não tornar o cara como um inimigo”, comenta a violinista.

Quando a apresentação é interrompida e os seguranças a retiram do transporte, Maria Luiza precisa pagar outra passagem para retornar e procurar uma linha diferente.

'Violinista Chavosa' se apresenta nos vagões do metrô — Foto: Maria Luiza Kaluzny/arquivo pessoal

‘Violinista Chavosa’ se apresenta nos vagões do metrô — Foto: Maria Luiza Kaluzny/arquivo pessoal

A motivação da artista para o trabalho nos vagões aconteceu por necessidade financeira, mas o contato com o público é a principal recompensa.

”O que deixa meu dia melhor não é o quanto eu ganhei, mas essa reação das pessoas. Tem dias que eu recebo mensagens assim: ‘Eu estava indo para uma entrevista de emprego, muito tensa, entrei no metrô e você tocou aquela música que eu gosto. Foi Deus que colocou você ali naquele momento’. Então, o que vale a pena é tornar o dia das pessoas melhor”, afirma.

Ela conta que, atualmente, concilia a rotina no transporte público com eventos que, muitas vezes, surgem de convites de pessoas que a viram no metrô. Maria Luiza também trabalha para alavancar a carreira como funkeira.

Segundo ela, ainda não é possível se apresentar com funk com frequência no metrô, porque ainda há uma baixa aceitação do público geral.

“Queria muito levar a Violinista Chavosa funkeira para o metrô, porém, o número de funk não é tão rentável. No dia a dia a gente está ali com senhoras, pessoas muito diferentes. Você entra em um vagão, tem um advogado, um marqueteiro, todos no mesmo vagão. O número de funk não é bem aceito de primeira, na maioria dos casos”, comenta.

Quando chega em um vagão com passageiros mais jovens ou quando está em uma região que ela considera de maior aceitação, a violinista toca sucessos do funk.

Nas outras linhas, a instrumentista usa o estilo de roupas e acessórios para chamar a atenção e surpreender os passageiros.

“Eu me caracterizo, vou com óculos juliet (espelhado), camisa de time, tênis de mola. Aí, eu chego e toco uma música que a maioria vai gostar, que é o pop internacional ou uma musica clássica. Quando eu entro, o pessoal espera uma coisa e, aí eu toco, e eles ficam ‘caramba’. Aí eu falo ‘quem gostou do meu trabalho, confira mais nas redes sociais, a Violinista Chavosa, e você vai ver todos os outros números, como funk”, conta.

Na gíria, o termo “chavosa” é atribuído a uma pessoa “cheia de estilo, de atitude”. Característica da qual a violinista se orgulha, na busca por mais espaço no cenário do funk nacional.

A MC gravou parcerias com outros funkeiros e usa a internet e redes sociais para divulgação dos projetos. O objetivo é reinventar o estilo, inserir instrumentos orgânicos e eruditos, como o violino, nas músicas.

“É o ritmo mais tocado no Brasil e é o ritmo brasileiro mais tocado lá fora. A tendência é essa constância no funk porém com elementos novos. E são coisas que já existem e a gente pode colocar ali, se reinventar. Tenho certeza que dentro de cinco ou 10 anos, vai ser normal ter números solo ou bandas completas no funk. Isso já está acontecendo”, afirma.

Por meio da música, também ocorre o combate ao preconceito contra as pessoas de periferia.

Maria Luiza, de 23 anos lançou projeto como MC e busca dar oportunidade para outros instrumentistas de periferia — Foto: Maria Luiza Kaluzny/arquivo pessoal

Maria Luiza, de 23 anos lançou projeto como MC e busca dar oportunidade para outros instrumentistas de periferia — Foto: Maria Luiza Kaluzny/arquivo pessoal

Para a artista, que ganhou o primeiro instrumento de um amigo dos pais porque a família não tinha condições financeiras e contou com bolsa na Fundação Cultural de Curitiba para conseguir pagar as aulas de violino, a arte é um caminho para a desmarginalização da cultura periférica.

“Tive experiências de estar gravando clipe em favela ou estar indo em um estúdio de funk e conhecer pessoas que viram o violino pela primeira vez. Temos duas classes, e a de cima está começando a consumir a arte que a gente produz. O que eu acho que tem que acontecer é se apropriar de tudo que a gente acha que é de playboy, e tudo que é pregado como ‘ostentação’, dizer: ‘Não é ostentação. Só quero viver bem, ter acesso à cultura e poder usar isso na minha realidade”, comenta.

A Violinista Chavosa divide o tempo atualmente entre as apresentações nos vagões do metrô e um projeto solo de funk, em que pretende gravar todas as faixas com instrumentos orgânicos, além do violino.

“Se não der certo esse, eu lanço outro projeto, até dar certo. Onde eu quero chegar é conseguir estourar no funk como tantos outros, mas ser essa nova porta. Quero que minha música seja tocada, mas se eu não chegar a ter uma música na boca do Brasil todo, que, pelo menos, eu tenha inspirado pessoas a entrar com instrumentos nessa área, e porque não no RAP, no Trap e outros ritmos periféricos?”, concluiu.

Com letras próprias, ela procura instrumentistas da favela para fazerem parte das gravações. A proposta é dar oportunidade e incentivar outros sonhos de instrumentistas das comunidades.

Assista aos vídeos mais acessados do g1 PR



Fonte: G1


22/04/2022 – Rota do Sol FM

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